Cremos na palavra do Profeta Jeremias: “Pastores vos darei segundo o meu coração” (Jr 3,15). O próprio Deus, pela fidelidade à sua palavra nos garante que seu povo seja servido e guiado por pastores. Contudo, a identidade essencial do ministério ordenado, bem como da vida consagrada, fogem a uma explicação meramente psicológica e sociológica. É humana, bem humana, mas tem a ver com Deus. Numa sociedade onde tudo é profissionalizado, o ministério do pastoreio vai além, é uma missão que supera o institucional. Ter a ver com toda a vida. Sua base é a fé. Tem sua inspiração em Jesus Cristo, o Bom Pastor, e é acolhida, discernida e realizada na comunhão da Igreja, nunca é somente uma vontade pessoal. O Sínodo dos bispos sobre Os jovens, a fé e o discernimento vocacional, apresentou a necessidade da Igreja estar próxima dos adolescentes e jovens nas suas interrogações, ajudando-os a perceber os sinais de Deus que vão mostrando a vocação. O crescente desafio da carência de vocações ao sacerdócio, à vida consagrada e, cada vez mais, ao matrimônio, com certeza, pede uma maior proximidade dos jovens para ajudar a reconhecer, interpretar e decidir a vida na perspectiva da fé.

 Duas condições são necessárias a quem quer acolher e acertar o caminho vocacional. A primeira é humana, o desejo sincero de sair de si, de se doar, compreendendo que a vida é um projeto, uma missão a realizar para que o mundo seja melhor. Este é um passo fundamental, visto que o individualismo consumista da sociedade propõe aos jovens um estilo de vida baseado na busca dos próprios interesses, seu sucesso econômico e profissional. O olhar é preferencialmente sobre si e só em segundo lugar, quando existe, para a sociedade, o país, os pobres e o meio ambiente. Em segundo lugar, para responder adequadamente à vocação é preciso ler e unificar a vida a partir de um centro, de Jesus Cristo, para que tudo, nEle, tenha sentido. Depende de nosso testemunho, de adultos na fé, oferecer oportunidade para nossos jovens conhecerem e se fascinarem por Jesus Cristo. No Sínodo dos Jovens, foi reafirmado que “a vida de Jesus continua a ser, ainda hoje, profundamente atraente e inspiradora; é para todos os jovens uma provocação que interpela” (Documento Final, n. 81). Nele, todos nos reconhecemos e nos sentimos representados, pois “revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime” (GS n.22).

Outro desafio apresentado pelo Sínodo é aproximar-se para escutar e acompanhar. “Tal serviço constitui a continuação do modo como o Deus de Jesus Cristo age em relação ao seu povo: através duma presença constante e cordial, duma proximidade dedicada e amorosa e duma ternura sem limites” (Documento Final, n. 91). A missão de acompanhar exige disponibilidade para ouvir e capacidade para oferecer elementos para o discernimento. Muitos jovens sentem a falta de pessoas que aceitem o desafio de acompanhá-los, como significa a palavra, comer do seu pão, daquilo que habita seu cotidiano. A comunidade cristã não pode, simplesmente, delegar para os pais esta missão. À medida que acolhe os seus filhos na fé, pelo batismo, assume o compromisso de não abandoná-los. A violência, as drogas, as discriminações, o bullying, a pobreza, a dificuldade de relacionamento familiar, a imaturidade afetiva, o vazio interior pela falta de sentido para a vida, são alguns dos pontos que os jovens pedem que saibamos dialogar com eles. Para quem vive no caminho de Jesus Cristo, este acompanhamento é um precioso auxílio para a pessoa reconhecer e abraçar a vontade de Deus na sua situação concreta. Só assim, poderemos criar uma cultura vocacional, que incentive nossos jovens nas suas escolhas vocacionais, seja para o sacerdócio, a vida consagrada ou ao matrimônio.

 

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta


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