Carta a Toda a Ordem

 

 Introdução

 carta ordem

Na edição dos “Opúsculos” de Wadding (1623) esta carta está dividida em três partes e tem três títulos. Por isso, mesmo nas edições de 1904 ela ainda aparece com o nome de Carta ao Capítulo Geral. Ou então se dizia que era “a todos os frades”. Mas este é o mais documentado de todos os Escritos de São Francisco, depois da Regra bulada e do Testamento. Esser livrou-a de todas as dúvidas e lhe deu o nome de Carta a toda a Ordem, autorizado por alguns manuscritos. É o texto mais bem escrito de São Francisco, com um latim muito bom, o que mostra que os se-cretários devem ter ajudado bastante. Um precioso documento sobre a Eucaristia. Embora alguns autores proponham que tenha sido escrita mais tarde, a opinião mais generalizada é que esta carta é do começo do ano de 1220, quando São Francisco estava fortemente influenciado pela publicação da bula “Sane cum olim”, de 1219...

Carta a toda a ordem

1.Em nome da suma Trindade e da santa Unidade, Pai e Filho e Espírito Santo. Amém.

2.A todos os reverendos e muito amados frades: a Frei .A., ministro geral da religião dos frades menores, seu senhor, e aos outros ministros gerais, que serão depois dele; e a todos os ministros e custódios e sacerdotes da mesma fraternidade, humildes em Cristo, e a todos os frades simples e obedientes, primeiros e últimos.

3.Frei Francisco, homem vil e caduco, vosso pequenino servozinho, [deseja] saúde naquele que nos remiu e lavou em seu precioso sangue (cfr. Ap 1,5), 4.cujo nome, ao ouví-lo, adorai-o com temor e reverência inclinados para a terra (cfr. 2Esdr 8,6), o Senhor Jesus Cristo, cujo nome é Filho do Altíssimo (cfr. Lc 1,32), que é bendito pelos séculos (Rm 1,25).

5.Ouvi, senhores filhos e irmãos meus, e percebei com os ouvidos as minhas palavras (At 2,14).

6.Inclinai o ouvido (Is 55,3) de vosso coração e obedecei à voz do Filho de Deus.

7.Guardai em todo o vosso coração seus mandamentos e cumpri perfeitamente seus conselhos.

8.Confessai-o porque é bom (Ps 135,1) e exaltai-o em vossas obras (Tb 13,6);

9.porque por isso vos enviou (cfr. Tb 13, 4) ao mundo inteiro, para que por palavra e por obra deis testemunho de sua voz e façais saber a todos que não há onipotente senão Ele (cf Tob 13,4).

10.Perseverai na disciplina e na obediência santa (Hb 12,7) e o que prometestes com bom e firme propósito, cumpri-o.

11.O Senhor Deus se oferece a nós como a filhos (Hb 12, 7).

12.Por isso, rogo a todos vós, irmãos, com o beijo dos pés e com a caridade que posso, que manifesteis toda reverência e toda honra, tanto quanto puderdes, ao santíssimo corpo e sangue do Senhor nosso Jesus Cristo.

13.em quem as coisas que estão no céu e as que há na terra foram pacificadas e reconciliadas com o Deus onipotente (cfr. Cl 1,20).

14.Rogo também no Senhor a todos os meus irmãos sacerdotes, os que são e serão e desejam ser sacerdotes do Altíssimo, que todas as vezes que quiserem celebrar a missa, puros com pureza façam com reverência o verdadeiro sacrifício do santíssimo corpo e sangue do Senhor nosso Jesus Cristo, com intenção santa e limpa, não por alguma coisa terrena nem por temor ou amor de alguma pessoa, como para agradar aos homens (cfr. Ef 6,6; Cl 3,22);

15.mas que toda a vontade, quanto ajuda a graça, seja dirigida a Deus, desejando agradar só ao próprio sumo Senhor, porque ali é Ele sozinho que age, como lhe agrada;

16.porque, como Ele mesmo diz: Fazei isto em minha comemoração (Lc 22,19; 1Cor 11,24), se alguém o fizer de outra maneira, converte-se em Judas, o traidor, e se torna réu do corpo e do sangue do Senhor (cfr. 1Cor 11,27).

17.Recordai, meus irmãos sacerdotes, o que está escrito na lei de Moisés, cujo transgressor, mesmo em coisas corporais, morria sem misericórdia alguma por sentença do Senhor (cfr. Hb l0,28).

18.Quanto maiores e piores suplícios merece padecer quem conclamar o Filho de Deus e julgar poluído o sangue da aliança, em que foi santificado, e fizer um ultraje ao espírito da graça (Hb 10,29).

19.Pois o homem despreza, polui e conculca o Cordeiro de Deus quando, como diz o Apóstolo, não distinguindo (1Cor 11,29) nem discernindo o santo pão de Cristo dos outros alimentos e obras, ou come-o sendo indigno ou mesmo, se fosse digno come-o de maneira vã e indigna, quando o Senhor disse pelo profeta: Maldito o homem que faz a obra do Senhor fraudulentamente (cfr. Jr 48,10).

20.E na verdade condena os sacerdotes que não querem por isso sobre seu coração, dizendo: Amaldiçoarei vossas bênçãos (Ml 2,2).

21.Ouvi, irmãos meus: Se a bem-aventurada Virgem é assim honrada, como é digno, porque o carregou em seu santíssimo útero; se o Batista bem-aventurado estremeceu e não ousa tocar a santa cabeça de Deus; se o sepulcro em que esteve por algum tempo é venerado,

22.como deve ser santo, justo e digno quem toca com as mãos, toma com o coração e com a boca e dá aos outros para tomar, aquele que já não há de morrer, mais vai viver para sempre é glorificado, em quem os anjos querem olhar (1Pd 1,12)!

23.Vede vossa dignidade, irmãos (cfr. 1Cor 1,26) sacerdotes, e sede santos, porque Ele é santo (cfr. Lv 19,2).

24.E assim como o Senhor Deus os honrou acima de todos por causa desse ministério, assim também vós amai-o, reverenciai-o e honrai-o sobre todos. 25.Grande miséria e miserável debilidade, quando o tendes tão presente e vós buscais alguma outra coisa em todo o mundo.

26.Pasme o homem inteiro, estremeça todo o mundo e exulte o céu quando, sobre o altar, na mão do sacerdote, está Cristo, Filho do Deus vivo (Jo 11,27);

27.Ó admirável alteza e estupenda condescendência! Ó humildade sublime! Ó sublimidade humilde, pois o Senhor do Universo, Deus e Filho de Deus, de tal maneira se humilha que, por nossa salvação, se esconde sob uma pequena forma de pão!

28.Vede, irmãos, a humildade de Deus e derramai diante dele os vossos corações (Sl 61,9); humilhai-vos também vós, para serdes exaltados por Ele (cfr. 1Pd 5,6; Tg 4,10).

29.Por isso não retenhais nada de vós para vós mesmos, para que vos receba inteiros aquele que a vós se dá inteiro.

30.Admoesto, por isso, e exorto no Senhor, que nos lugares em que os frades moram celebre-se apenas uma missa no dia, segundo a forma da santa Igreja.

31.Mas se houver vários sacerdotes no lugar, fique contente cada um, por amor da caridade, de ouvir a celebração de outro sacerdote.

32.Porque o Senhor Jesus Cristo preenche os presentes e os ausentes que são dignos dele.

33.O qual, embora se veja que está em vários lugares, todavia permanece indivisível e não conhece detrimento algum, mas, sendo um em toda parte, age, como lhe agrada, com o Senhor Deus pai e o Espírito Santo Paráclito nos séculos dos séculos. Amém.

34.E porque aquele que é de Deus ouve as palavras de Deus (cfr. Jo 8,47), por isso devemos nós, que mais especialmente estamos dedicados aos ofícios divinos, não só ouvir e fazer o que Deus diz mas também guardar os vasos e as outras coisas oficiais que contêm suas santas palavras, para insinuar em nós a alteza de nosso Criador e nossa submissão a Ele.

35.Por isso admoesto a todos os meus frades e o conforto em Cristo para que, onde quer que encontrarem palavras divinas escritas, venerem como puderem

36.e, no que diz respeito a eles, se elas não estiverem bem colocadas ou estiverem indecorosamente espalhadas em algum lugar, que as recolham e guardem, honrando ao Senhor nas palavras que disse (3Rs 2,4).

37.Pois muitas coisas se santificam pelas palavras de Deus (cfr. 1Tm 4,5), e em virtude das palavras de Cristo realiza-se o sacramento do altar.

38.Confesso, além disso, ao Senhor Deus Pai e Filho e Espírito Santo, à bem-aventurada Maria, Virgem perpétua, e a todos os santos no céu e na terra, a Frei H., ministro de nossa religião, como a venerável senhor meu, e aos sacerdotes de nossa Ordem e a todos os outros meus frades benditos todos os meus pecados.

39.Em muitas coisas ofendi por minha grande culpa, especialmente porque não guardei a regra, que prometi ao Senhor, nem disse o ofício, como a regra prescreve, ou por negligência ou por ocasião de minha enfermidade, ou porque sou ignorante e iletrado.

40.E por isso, por causa de todas essas coisas, rogo, como posso, a Frei H., meu senhor ministro geral, que faça com que a regra seja observada inviolavelmente por todos;

41.e que os clérigos digam o ofício com devoção na presença de Deus, não atendendo à melodia da voz mas à consonância da mente, de forma que a voz concorde com a mente, e a mente concorde com Deus,

42.para que possam pela pureza do coração aplacar a Deus e não recrear os ouvidos do povo pela sensualidade da voz.

43.Pois eu prometo guardar firmemente essas coisas, como Deus me der a graça; e transmitirei aos frades, que estão comigo, essas coisas, para que sejam observadas no ofício e nas outras constituições regulares.

44.mas quaisquer dos frades que não quiserem observar estas coisas, não os tenho como católicos nem como frades meus; também não os quero ver nem falar com eles, até que façam penitência.

45.Também digo isso de todos os outros que andam vagando, deixando de lado a disciplina da Regra;

46.porque nosso Senhor Jesus Cristo deu sua vida para não perder a obediência de seu santíssimo Pai (cfr. Fl 2,8).

47.Eu, Frei Francisco, homem inútil e indigna criatura do Senhor Deus, digo pelo Senhor Jesus Cristo a Frei H., ministro de toda a nossa religião, e a todos os ministros gerais, que o serão depois dele, e aos demais custódios e guardiães dos frades, que o são e serão, que tenham consigo este escrito, ponham-no em prática e o guardem cuidadosamente.

48.E lhes suplico que, o que nele está escrito, guardem-no solicitamente e o façam observar mais diligentemente, segundo o beneplácito de Deus onipotente, agora e sempre, enquanto existir este mundo.

49.Abençoados sejais pelo Senhor (Sl 113,13) os que fizerdes estas coisas, e o Senhor esteja convosco eternamente. Amém. [Oração]

50.Onipotente, eterno, justo e misericordioso Deus, dá a nós, miseráveis, fazer, por ti mesmo, o que sabemos que tu queres, e sempre querer o que te apraz,

51.para que, interiormente purificados, interiormente iluminados, e acesos no fogo do santo espírito, possamos seguir os vestígios de teu amado Filho, nosso Senhor Jesus Cristo,

52.e chegar só por tua graça a ti, Altíssimo, que na Trindade perfeita e na Unidade simples vives e reinas e és glorificado, Deus onipotente, por todos os séculos dos séculos. Amém.

::CtOr:: 2. “amados frades”: em latim está “diligendis” = que devem ser amados. 3). “pequenino servozinho”: na sua humildade, Francisco insistiu nesse “parvulus servuluas”. Em bom latim, referia-se a um servo de qualidade inferior. 7). “perfeitamente”: em latim as palavras estão separadas “perfecta mente”, mas isso é um indício de como estavam sendo formados advérbios nessa época. 21). “estremeceu e não ousa”: Francisco escreveu assim mesmo: um verbo no passado e outro no presente. 26). “Pasme”: em latim está “paveat”, um verbo que expressa espanto revrencial e até terror. 30). Não se conhece nenhuma determinação da Igreja mandando rezar só uma missa; pelo contrário, o Missal de Honório III dizia que, onde havia vários sacerdotes, podiam celebrar sua missa “secrete”, separadamente. Francisco provavelmente quer que se celebre segundo a forma, isto é, segundo rito determinado pela Igreja. 34). “insinuar”, ao pé da letra não quer dizer apenas fazer uma alusão, mas fazer entrar bem lá dentro.


  • visitas 897