Introdução

É um documento conhecido desde o fim do sec. XIV, porque Bartolomeu de Pisa faz várias citações, sem nunca colocar o texto inteiro. Wadding apresentou mais de uma versão, sem deixar nada claro. Foi uma surpresa quando os estudiosos começaram a encontrar códices que davam a carta completa. Algumas publicações foram feitas antes de 1900, por Eduardo de Alençon e Paulo Sabatier. Não se sabe quem é o ministro que recebeu a carta, mas ela costuma ser datada com bastante segurança antes de 1223 e até mesmo antes de 1221, mas não pode ser muito anterior. É um belíssimo escrito sobre a misericórdia, que nos faz conhecer bem de perto São Francisco...

Carta a um Ministro

1.A Frei N., ministro: O Senhor te abençoe (cfr. Nm 6,24).

2.Eu te digo, como posso, acerca do caso da tua alma, que todas aquelas coisas que te impedem de amar ao Senhor Deus, e quem quer que fizer impedimento, sejam frades sejam outros, mesmo que te chicoteassem, deves Ter tudo como uma graça.

3.E assim queiras e não outra coisa.

4.E que isso seja ti obediência verdadeira do Senhor Deus e minha, porque sei firmemente que esta é a verdadeira obediência.

5.E ama aqueles que te fazem isso.

6.E não queiras outra coisa deles senão o que o Senhor te der.

7.E ama-os nisto; e não queiras que sejam melhores cristãos.

8.E que isto seja para ti mais do que o eremitério.

9.E nisto quero conhecer se tu amas ao Senhor e a mim, servo seu e teu. se fizeres isto, a saber: que não haja nenhum frade no mundo, que tenha pecado tanto quanto puder pecar, que, depois que tiver visto teus olhos, nunca se retire sem a tua misericórdia, se buscar misericórdia.

10.E se não buscar misericórdia, que tu lhe perguntes se quer misericórdia.

11.E se depois pecasse mil vezes diante de teus olhos, ama-o mais do que a mim, para isto, para que o atraias ao Senhor; e que sempre tenhas misericórdia de tais [pessoas].

12.E, quando puderes, comunica isto aos guardiães, que por tua parte estás resolvido a fazer assim.

13.Quanto a todos os capítulos que há na regra, que falam de pecados mortais, com a ajuda de Deus no capítulo de Pentecostes, com o conselho dos frades faremos um capítulo deste jeito:

14.Se algum dos frades pecar mortalmente por instigação do inimigo, seja obrigado por obediência a recorrer ao seu guardião.

15.E todos os frades, que souberem que ele pecou, não lhe causem vergonha ou detração, mas tenham uma grande misericórdia para com ele e mantenham bem oculto o pecado de seu irmão; porque não há necessidade de médico para os sãos mas para os que têm algum mal (Mt 9,12).

16.Igualmente por obediência estejam obrigados a enviá-lo a seu custódio com um companheiro.

17.E o custódio mesmo atenda-o misericordiosamente, como quisera que fizessem com ele, se estivesse em um caso semelhante.

18.E se cair em outro pecado venial, confesse-o a um irmão seu sacerdote.

19.E se não houver ali sacerdote, confesse-o a um irmão seu, até que haja um sacerdote que o absolva canonicamente, como foi dito.

20.E estes não tenham absolutamente poder de impor outra penitência a não ser esta: vai e não peques mais (cfr. Jo 8,11).

21.Este escrito, para que deva ser melhor observado, que o tenhas contigo até Pentecostes; ali estarás com teus frades.

22.E estas coisas e todas as outras, que estão a menos na regra, procurareis completar com a ajuda do Senhor Deus.


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